‘O’ segredo para marcar uma turnê sem nenhuma plateia vazia

Todo artista tem de ir aonde o povo está. O Milton Nascimento sabe das coisas, como também sabe o Joshua Powell, que contou para a gente qual é o segredo que aprendeu para nunca fazer um show sem plateia quando está em turnês que duram meses. E a gente conta para você

‘O’ segredo para marcar uma turnê sem nenhuma plateia vazia[Este post foi escrito pelo compositor de folk-rock Joshua Powell, e apareceu antes no site Fearsome Folk.]

Numa turnê furacão, em que eu marquei de cobrir todo o Oeste dos EUA em seis semanas, um fã começou a nos chamar de “guerreiros da estrada”. Com uma mistura de gratidão e auto-escárnio, a gente se sentiu obrigado a corrigir o termo dele: a gente com certeza se identificava mais com o apelido “cães da estrada”. Sua tia avó no almoço de Páscoa pode não reconhecer que ter uma banda é ter um “trabalho de verdade”, mas eu a desafio a planejar uma turnê transcontinental, dirigir de 2 a 10 horas por dia, manter outros três companheiros de banda felizes e alimentados, suar tocando uma hora de música ao vivo toda noite e não achar que o sofá de um fã, onde você vai terminar a noite dormindo, é a melhor companhia de toda sua vida.

Faz três anos que eu caio e saio da estrada com a minha banda. E tudo que fizemos foi por conta própria, num esquema roots, que nós mesmo marcamos. A gente aprendeu muito nesse caminho, mas eu descobri um segredo de fazer turnê que vale como o princípio mais sagrado para fazer que suas turnês sejam bem-sucedidas. Nunca faça um show sem escalar de uma a três bandas como seu apoio local.

Não me importa quão bacanas as casas noturnas são ou o quanto elas alegam que têm um público fiel. Se você quer transformar as pessoas de um bar em fãs, não vai conseguir fazer isso sozinho. Se você só quer tocar por três horas para ganhar R$ 300 e uns drinques no bar, pode parar de ler por aqui. Não há vergonha alguma nisso, e eu mesmo faço isso de vez em quando, com um show ou outro só para rechear a carteira. Mas, se você realmente está atrás de construir igualdade num mercado de trabalho, as bandas locais são sua melhor aposta. Aqui, vou oferecer seis dicas simples de como ter certeza que você nunca mais vai tocar para uma sala vazia.

1. Tome iniciativa.

Muitas casas noturnas vão se apoiar na regra que você precisa trazer o público por conta própria. Outras vão reservar uma noite para você sem fazer exigências. Se você não tem amigos ou fãs na cidade onde vai tocar, ninguém vai sair para ouvir uma banda da qual nunca ouviram falar. Confira com as casas de show se você pode marcar com algumas atrações locais. “Mas isso significa que o dinheiro vai ser dividido!”, você pode dizer. Sim. Mas você vai ficar surpreso com a generosidade da maioria das bandas que vai conhecer. Muitas vão dar o seu pagamento (ou parte dele) só porque sabem que você está na estrada. E, se você oferecer a eles um show em troca na sua cidade, faz valer a pena para eles. Só avise a casa noturna que você está disposto a arcar com o custo. A maioria dos produtores de evento vai preferir trabalhar com você se você tomar essa responsabilidade..

2. Faça a pesquisa.

Eu sei que você já trabalhou muito para estabelecer uma rota, marcar os shows, mandar fliers. Mas essa vai ser a função que mais vai ter retorno na sua lista. Olhe para quais bandas do seu estilo que estão tocando nos clubes da região: esses são lugares que já são ativos em suas próprias cenas. Se eles estão tocando também em outros lugares eles estão conquistando fãs. Marcar shows com essas bandas garantirá acesso a esses fãs que já existem. Escreva um e-mail oferecendo sua banda de maneira simples, com um press kit, inclua a data em que você pensa em se apresentar e ofereça um show em troca na sua cidade. Como acontece na hora de marcar em casas noturnas, você nem sempre vai conseguir sua primeira opção, então mande e-mail e mensagens de Facebook para mais bandas do que você achava ser necessário. A maioria das baladas concorda com ter 3 ou 4 bandas em uma noite, e esse é o ponto ótimo. Uma boa regra é entrar em contato com três vezes mais bandas do que você quer marcar. Eles também têm suas agendas de show e não vão estar se ajudando OU ajudando você se eles superlotarem o mercado local de shows. Se você entrar em contato com 12 bandas, é provável que consiga o que quer.

Quando eu entro em contato com uma banda que recusa meu convite, eu geralmente pergunto “Tem alguma outra banda amiga da região que você queira indicar?” Eles geralmente ficam felizes em ajudar—eles também estão ajudando os amigos! Prefira as bandas que têm de 1.000 a 1.500 fãs no Facebook, tipo você. Se eles tiverem menos de 500, provavelmente não conseguirão trazer para o show tantas pessoas quanto você precisa. Se eles tiverem mais de 4.000, provavelmente terão um empresário com quem você terá de entrar em contato, e bandas desse tamanho só costumam tocar de 4 a 6 vezes por ano na sua cidade de origem. Não tenha uma ideia hiperinflacionada de si mesmo, baseado nos seus números de redes sociais. Essas bandas estão te fazendo um favor.

Há outros jeitos de encontrar bandas locais. Quando achar uma ou duas bandas do lugar, dê uma fuçada no Facebook deles até achar eventos. Nessas páginas de evento, você vai encontrar outras bandas com quem eles andaram tocando. Isso funciona como mel para achar outras bandas. O jeito mais simples é perguntar para os produtores de evento se eles conhecem bandas locais que poderiam se encaixar no seu gênero. E, se nada disso der certo, vá para o bandcamp.com e faça uma busca por local. Use “Ctrl+F” e escreva o nome da cidade para onde vai. E pronto. É uma droga ter de julgar uma banda pelas fotos delas, mas conhecemos muitas pessoas boas assim.

3. Prepare transições fáceis.

Alguns dos seus equipamentos não podem ser emprestados, mas muitas baterias e amplificadores podem ser compartilhados, e se você e as bandas de apoio discutirem isso de antemão, você pode economizar muito tempo e muito esforço se usarem os mesmos equipamentos. É uma bondade deixar os bateristas usarem seus bumbos e pratos, mas o resto das estruturas de percursão são fáceis de compartilhar, e você vai poupar sua banda e o engenheiro de som de muito trabalho se usar um kit só de bateria, em vez de três—ainda mais se os microfones estiverem na jogada. Sempre trate os instrumentos dos colegas com muito respeito, e esteja disposto a compartilhar os seus. Transições de palco muito longas entre uma banda e outra podem matar a vibe de uma banda. Seja eficiente com a retirada do seu equipamento. E depois se lembre de fazer umas três checagens do palco antes de ir embora, para não deixar nenhum equipamento para trás.

4. Banco de dados.

Se você tem uma personalidade criativa que nem a minha, você já cumpriu essa dica. Mas pode acreditar. Mantenha uma lista simples e limpa, sempre atualizada, das bandas com quem tocou, a pessoa para entrar em contato, onde eles moram e como foi a experiência. Se você viajar muito, vai acabar não se lembrando de todos os detalhes.

Ter uma simples planilha em que você pode buscar pela cidade vai facilitar muito seu trabalho da próxima vez. “Quem era o pessoal com quem tocamos em Pittsburgh?” Confira seu banco de dados. E eles têm o dobro de fãs desde então! Você já começou uma amizade no seu último show, e é muito mais fácil marcar um show com velhos camaradas do que ficar ligando ao léu para pessoas que você não conhece. Não importa se os contatos estiverem salvos como uma nota no celular —vai te poupar muito trabalho mais para a frente.

5. Escale as bandas do jeito certo.

A ideia de ser o “show principal” não é a mesma coisa para um artista independente como é para a Taylor Swift ou Kanye West. A melhor posição para tocar numa noite com três ou quatro bandas com certeza não é o quarto lugar. As pessoas saem para ver as bandas dos seus amigos, e depois ficam cansadas. Eles têm de trabalhar de manhã. Ou vai passar The Walking Dead às nove da noite. O primeiro a tocar também não é o melhor lugar. As pessoas chegam atrasadas. Mas, durante a banda de número 2 ou 3, os atrasados já chegaram e os que chegaram antes ainda não estão cansados. A maioria das bandas locais sabe disso e pode estar disposta a ceder a você esse horário nobre. Seja flexível, mas firme e assertivo. Não haja como se você tivesse o direito de cobrar. Peça com humildade para tocar no meio. Se o herói da vizinhança tocar no final, seus fãs não vão embora até lá. Todos vão ter que ficar e te assistir também e você terá a chance de convertê-los em fãs. Mas, se as bandas locais tocarem antes, eles podem até implorar, “Fiquem para ouvir o pessoal de fora que está em turnê”, mas é provável que os fãs saiam.

6. Pague sua dívida cármica.

Um novo amigo de estrada meu, que também é cão de estrada há tempos, nos recebeu na sua cada, em San Francisco, com tanta generosidade e elegância, que a gente mal pôde acreditar. Enquanto a gente o agradecia de montão, ele respondeu: “Eu seu como é. E pensei que pudesse pagar eu carma musical.” Mesmo que eu não acredite nada em questões místicas, esse argumento foi incrivelmente tocante. Você ja ouviu “Trate os outros como gostaria de ser tratado”? Pois isso se aplica ao circuito de turnês também. Se uma pessoa te apoia enquanto você está na estrada, abra a porta para ela quando ela estiver na sua região. Compartilhe seus contatos com todos e os incentive a entrar em contato se estiverem na área. (Diga-se de passagem, se você ainda não conhecer gente o suficiente na sua região para encher uma casa de show local, ainda não é hora de sair em turnê) Quando você não estiver na estrada, abra as portas da sua casa. Hospede essas bandas viajantes. Encha a geladeira de cerveja. Separe toalhas e cobertores. Tenha na mão sua senha do wi-fi. Faça um cafezão da manhã. Você sabe como é..

Nós todos estamos nessa juntos, e é só um com a ajuda do outro que chegaremos aonde sonhamos em chegar. Qualquer banda será mais rápida em te ajudar quando se lembrar de como você a ajudou. Não deixe a balança do karma pender muito para um lado sem dar nada em troca.

Bons relacionamentos com casas de show são bons, mas com outras bandas são ainda melhor. Eles podem te conseguir lugares melhor do que você conseguiria sozinho Eles vão dividir as cozinhas deles com você. E eles vão levar seus fãs para as salas escuras onde você tocar. Faça o dever de casa, mantenha os contados das bandas que você procurou nas regiões, facilite as transições do palco, pense na ordem das bandas que vão tocar na mesma noite e sempre ajude quando tiver a oportunidade.

E nos procure quando estiver na estrada—nós estamos no negócio para fazer amigos.

4 Comentários

  1. seadiproducao@gmail.com'
    by seadi on julho 1, 2016  16:13 Responder

    Discordo em quase todos os pontos. Essa maneira amadora de trabalhar vai te levar pra um caminho só: continuar sendo amador.

    • andersonsilva.bx@gmail.com'
      by Anderson on julho 11, 2016  20:07 Responder

      Seadi... em alguns pontos posso até discordar, mas antes de criticar entra na página do Joshua, escuta o trabalho dele e dá uma olhada na agenda. Vai descobrir o quão amador foi seu comentário.

  2. johnnyboychaves@gmail.com'
    by Joao Vital Chaves on julho 11, 2016  13:25 Responder

    Achei muito interessante.Eu viajo o BR inteiro com a uma banda que toca em grandes festivais e casas de show...Circo Voador,
    João Rock, Rock in Rio, etc...E vejo a batalha das bandas novas..O que não vejo é muita gente dando dicas como as que foram
    dadas nessa matéria.Não trata se de ser profissional ou amador e sim de respeito, amizade, assim vem junto o reconhecimento
    entre os músicos"Artistas" .Na prática isso é mais real que viajar e viver sonhando em ser um Super Star. Enfim a matéria na minha
    humilde opinião ajuda a dar um " norte " para quem está perdido.Valeu..Obs..

  3. carlosbluesman@hotmail.com'
    by Carlos Bluesman on julho 11, 2016  15:30 Responder

    Isso tudo tá me parecendo dica de californiano...
    Vamos tropicalizar um pouco mais. Mexicanizar, talvez, gente!
    Qualquer show de Rock a partir de 30 km, hoje, no Brasil é uma operação de guerra. Pode haver emboscada, arrastão e outras milongas mais. Sem patrocínio é melhor tocar na missa das 7. Ou então chama o Tarantino pra dar umas dicas.
    Hiuáshuáshuáhuáshuáushuáshuáháááááááá!!!

Comente

Seus email não será publicado.