Congressos de Música: os Bons, os Maus e, especialmente, os Feios

Congressos de músicos, essa onde que começa no Brasil, valem a pena? Um dos colaboradores do SomosMúsica diz um sonoro NÃO em um texto que você precisa ler antes de pagar as taxas de inscrição

shutterstock_170072672-300x200[Este post foi escrito pelo compositor e artista Joe Marson. Ele foi publicado originalmente em seu  blog.]


Nota do autor: Este texto desencoraja a ida a pequenos congressos de músicos, que eu acredito só existirem para desestimular artistas ambiciosos, sonhadores e ávidos; entretanto, há pequenos trechos de positividade aqui no meio.   

O que é um congresso de músicos? Ele pode ser descrito como um evento de um ou de alguns dias,  geralmente sediado em um hotel ou espaço de eventos em que pessoas do mercado da música se juntam para ouvir palestrantes convidados falarem durante o dia e ouvir apresentação de artistas que estão come estandes lá à noite. A não ser que você seja convidado a tocar, deve pagar para entrar diariamente.

Parece uma ótima oportunidade de fazer “networking”, em que você pode conhecer alguns caras que, se gostarem do seu som, podem te ajudar a levar sua carreira musical um passo adiante, certo? Infelizmente, eu descobri que esses congressos parecem ser, na maioria das vezes, a oportunidade para profissionais novatos no “mercado da música” ganharem uma grana como palestrantes* – e também para trazer movimento para uma cidade ou hotel fora de temporada.

Eu fui a um bom tanto dessas conferências, na maior parte delas como artista que iria se apresentar. No último em que me apresentei,  cujo nome não vou contar aqui, vai servir como exemplo para eu explicar o porquê de eu nunca mais ir a outro desses (a não ser que me paguem uma boa grana!)

A cidade que eu não vou nomear convidou 40 artistas para ir a seu congresso de graça, contanto que eles tocassem em “casas de show” espalhadas pela cidade sem cobrar por isso. O velho truque de oferecer “exposição”. Bom, para começo de conversa não é uma exposição boa se não tem ninguém vivendo nessa cidade, como é o caso da maioria desses congressos. De verdade, dê uma olhada no campo de “oportunidades” de sites como Reverbnation e Sonicbids, que listam esse tipo de congresso. Você já ouviu falar das cidades que estão sediando esses eventos? Talvez, mas não a maior parte do tempo, Eu não, e tô gozando a vida (pode fazer a piadinha sexual aqui e depois se dar um murro na cara por ter feito.)

As ofensas à sua inteligência continuam quando eles começam a fazer propostas únicas de hotéis —só costuma haver um hotel na cidade, e ele é sempre bem caro. Como no caso da Cidade Sem Nome, o congresso aconteceu numa praia … mas no inverno, quando nenhum estabelecimento estava aberto numa distância que podíamos percorrer a pé.** Então você está  preso lá, comendo comida hiperinflacionada de hotel, pagando pelo seu quarto caro e não recebendo para tocar enquanto isso.

Isso não seria TÃO ruim se o evento para o qual você foi convidado valesse a pena. O que me leva a falar dos palestrantes.  Meu Deus, não dá para ter ideia de onde foram tirar essas pessoas. Esses são os típicos:

Especialistas de Redes Sociais

Eles variam de utilidade, ainda que na maioria das vezes eu tenha achado eles uns passos para trás do presente. Você quer saber qual rede social atinge mais gente? Vé direto à fonte e pergunte para alguns moleques de 16 anos. Quer saber estratégias? Joga no Google. Há tantos fóruns de discussão e textos úteis por aí. Ainda que eles não sejam tão ruins quanto outros tipos de palestrantes, eu nunca saí de uma palestra com especialistas em redes sociais com mais informações do que eu já tinha encontrado na internet—de graça.

Produtores/Engenheiros

Os produtores geralmente são empertigados e do tipo sou-mais-bacana-que-você-porque-uma-vez-trabalheicom-o-Cat-Stevens-ainda-que-ele-provavelmente-não-se-lembre-de-mim. Agora eles só achacam alvos fáceis de dinheiro, que no caso somos nós, músicos.

Os artistas que fazem turnês

Esses homens e mulheres são geralmente os mais valorosos. São eles que estão vivendo a vida e lutando a luta justa. São eles que geralmente estão mais atualizados de todas as facetas da indústria, motivados pela necessidade de progredir, sobreviver e continuar fazendo aquilo que eles fazem. Esse processo geralmente separa o que funciona de o que não funciona bem rapidinho.

Palestrantes de assuntos jurídicos

Podem ser bem úteis e dissecar problemas específicos, para resolvê-los.

Os especialistas em composição

SÃO OS PIORES. E isso respinga no meu quintal porque, como eu sou um compositor, eu adoraria sair dizendo para os outros o que é “certo” e o que é “errado”. Essas pessoas são uma formula datada que saiu de Nashville, onde compunham músicas country, e estão prontos para escrever regras em pedra. Toda vez que eu fui atrás de saber o que já tinham feito e ouvir suas músicas, eu fiquei completamente decepcionado. Mas eles estão aqui, tentando vender seus livros sobre como escrever um hit. Eu sempre acho que eles merecem uma chance e acabo entrando até o meio da sala quando eles estão falando sobre o que funciona e o que não funciona para composição musical (na minha cabeça, estou sempre tentando listas dez canções ótimas ou de sucesso comercial incrível que justifiquem essas regras).

Quanto às apresentações, pode ser luxo ou lixo. Ainda que eu tenha ouvido bons shows de vez em quando, a maioria das pessoas toca para uma sala vazia ou com poucas pessoas, conversando entre si. É uma pena, porque eu já vi uma porção de artistas que viajaram muito em busca da “exposição” que seria tocar ali. Se você ouve um sonzinho de ressentimento no meu texto é porque eu penso nesses artistas mas também relembro o que aconteceu comigo quando sentia que estavam tirando proveito da minha paixão.

Então, para concluir, ainda que eu geralmente aconselhe as pessoas a economizarem seu tempo, dinheiro e dignidade evitando esses eventos, eu também queria incluir alguns pontos positivos em potencial.

Como em escolas de música, a melhor coisa desses congressos são os outros músicos. Conhecer amigos novos e ótimos,  converser sobre quais estratégias funcionam para eles, fazer show junto, montar uma sessão de improviso e jamming. São coisas ótimas que, se você não consegue fazer na cidade onde mora, talvez façam valer a pena ir a esses encontros. E também há panelistas que às vezes admitem não ter 100% de certeza de o que estão fazendo e estão dispostos a começar discussões de grupo que fujam do senso-comum e pensem fora da caixa.

Se você for aceito para tocar num congresso local perto de casa,  eu diria para ir lá e provar você mesmo. Mas se for a um longe de casa e para o qual você terá de gastar muito dinheiro para ganhar pouco reconhecimento, nenhum fã novo ou experiências significativas de música, pode ter certeza que ficará com um azedume na boca.

*Eu não sou de matar a vibe de ninguém,, mas a falta geral de entusiasmo faz com que se sinta que é o único motivo para estar lá.

**E muitos de nós éramos de Nova York e não tínhamos carros.

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A que congressos musicais (grandes ou pequenos) você já foi? Valeu a pena? Compartilhe suas experiências e pensamentos na seção de comentários, abaixo.

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