Compondo para Filmes e Vídeos

Não é porque você decidiu ser músico que nunca vai poder trabalhar com cinema. Batemos um papo com Jeanine Cowen, que faz algumas das trilhas sonoras mais legais, e ela conta um pouco sobre como é a vida de compositor para a telona.

Compondo para Filmes e VídeosUma entrevista com Jeanine Cowen, compositora, empresária e dona da empresa de sonorização de filmes e vídeos JMC Music, Inc.

Entrevista conduzida por Keith Hatschek, originalmente publicada na Echoes em 10/12/10.

Dona da sua própria empresa de sonorização de filmes e vídeos, a JMC Music, Inc., Jeanine Cowen é qualificada como poucos para falar sobre a dualidade da carreira de compositor e empresário. Percussionista com treinamento clássico, ela se envolveu com trilha de cinema quando um colega de faculdade pediu que escrevesse o tema para um curta-metragem. Ela amou o poder e as nuances que esse estilo de música pode emprestar ao cinema.

Que qualidades foram mais úteis para você no desenvolvimento da sua carreira?

Ser capaz de ler música na partitura é uma coisa gigante. Eu comecei a compor quando estava no ensino médio – ser capaz de orquestrar e arranjar música, e pensar no que os outros músicos são capazes de fazer também foi importante, e acho que isso me ajudou a ficar mais confortável no estúdio e ser capaz de expressar aos outros músicos o que eu preciso deles. O outro fator que foi essencial na carreira foi minha educação na Berklee College of Music – que me forçou a pensar fora da caixa da música clássica e me ensinou a improvisar e fazer jazz. Ter experimentado vários gêneros diferentes de música me levou a ser uma compositora mais versátil para cinema. Você nunca sabe o que vai ter de escrever. É preciso conseguir entregar um bom trabalho, e isso envolve vários gêneros musicais.

Então compor para cinema ou orquestrar trilhas é, na verdade, um trabalho de generalista, já que cada cineasta te coloca um desafio diferente.

Sim, e você também precisa conhecer seus próprios defeitos, para que possa consultar ou contratar pessoas que façam essas partes por você.

E muitas vezes, como uma compositora para filmes, você escreve algo que você normalmente não teria escrito em composições mais pessoais. Você precisa ser capaz de fundir sua intuição com as necessidades do projeto. Afinal, você está trabalhando para outra pessoa.

Foi assustador sair da escola e pensar “Eu sou a pessoa responsável pelo meu próximo pagamento, agora tenho de encontrar clientes…”

Foi um desafio, e por muito tempo! Quando se está trabalhando sozinho, e você é o senhor de tudo o que acontece com você, é um salto no escuro. Você tem de ser capaz de dizer “Eu seu que vai dar certo.”

Uma das coisas que eu aprendi é que eu preciso sempre ter o equivalente a um mês ou dois de salário no banco quando chego ao fim de um projeto, para não pirar e acabar aceitando outros projetos que nem queria. Compositores têm de fazer músicas em que acreditem.

Fazer projetos em que você acredita permite que você faça isso. Se você está envolvido num projeto em que não acredita, vai ser difícil se conectar e fazer um belo trabalho.

Como é um dia normal seu?

Meu dia típico é uma mistura de escrever música e ser a administradora do meu negócio. Você tem de pagar contas, escrever cheques e fazer ligações. E também tem os pepinos que aparecem a cada dia. Se eu conseguir passar metade do meu dia compondo música, estou feliz.

Então compor é uma parte essencial do negócio, mas não é tudo.

Sim, e eu acho que aí mora a diferença, Você é um músico – num negócio. Não é um hobby; você está tocando um negócio. E isso vai ser igual, quer você esteja trabalhando para alguém ou tocando seu próprio negócio. Há coisas que você tem de fazer porque tem clientes.

Fale um pouco sobre seu primeiro trabalho com trilha de cinema. Como você conseguiu, como se saiu e o que era?

Meu primeiro trabalho com trilha foi de um filme chamado Home Before Dark. Eu consegui esse trabalho porque o cineasta tinha ligado para o Mason Daring, que simplesmente não tinha tempo para fazer, então ele me recomendou. Foi uma experiência e tanto. O cineasta, Maureen Foley, e eu nos demos muito bem. Era um filme com baixo orçamento, mas foi bem sucedido. Eu ainda ouço a trilha sonora e não sei bem como a escrevi. Eu escrevi um dos trechos na noite anterior à gravação

Seu currículo também inclui trilhas de videogame. Quais as diferenças disso e compor para filme?

É diferente porque você está trabalhando para uma empresa de desenvolvimento, neste caso. As coisas são muito mais estruturadas e eles têm deadlines e metas que você precisa cumprir. O aspecto colaborativo também é muito diferente, porque você muitas vezes trabalha diretamente com os artistas visuais. Por mais que a indústria do cinema seja muito focada no trabalho em grupo,não oferece tanto tempo de interação como quando se faz videogame. Compor para filme pode ser uma profissão solitária E pode ser um processo mais longo do que nesse caso.

Você poderia apontar algumas capacidades essenciais para quem quiser ser compositor, como você mesma?

A capacidade de conseguir cumprir prazos é enorme. Você não pode perder um prazo, ou simplesmente nunca mais será contratado. Você também tem de se apaixonar pela música que está escrevendo, para que não seja convencido a fazer algo com que não concorda. Você precisa pensar em novos ângulos musicais. Se o cliente quiser algo que você não está disposto a entregar, precisa descobrir o que te incomoda e como contornar isso e transformar a música em algo que os dois gostem. Ser capaz de fazer isso é essencial.

Você acha que encontrar um mentor, como você encontrou, ainda é o melhor jeito de começar a trabalhar como compositor, depois que já se tem as habilidades musicais básicas?

Eu acho que isso mudou dramaticamente desde o meu tempo. Eu saí da faculdade e havia alguns jeitos de seguir. Há compositores que com certeza precisam de ajuda, mas o negócio é o seguinte, ninguém vai anunciar que precisa de um compositor para cinema. As equipes precisam de alguém que mantenha seus sistemas funcionando, precisam de engenheiros e de editores de música. Eu acredito que essas profissões são válidas pela mesma razão que curti trabalhar com o Mason –para entrar nesse universo e assistir. Eu sugeriria, entretanto, que se você está nesse momento da vida, estabeleça um limite de tempo para estagiar.

A outra possibilidade é você pode abrir sua empresa e anunciar para o mundo: “Eu sou um compositor de músicas para filmes.” Comece a correr atrás dos filmes independentes que estão rolando por todo o país. Vá lá e dê seu melhor. Um dos segredos de compor para o cinema é que você precisa conquistar uma clientela que confie em você. Eu tenho sorte porque consegui fazer isso com o passar dos anos. Hoje, tenho diretores que me ligam antes de procurar qualquer outra pessoa.

Olhando para trás, tem algo profissional que você queria ter sabido no passado, e hoje sabe?

Eu acho que a coisa que eu não sabia era que eu me transformaria numa empresária. Eu sempre achei que eu só escreveria música, e não me via gerenciando tudo o que é necessário para ter um negócio.

Jeanine mora em Boston há 20 anos, cooptando expoentes da cena musical extraordinária da cidade para tocar nas suas trilhas sonoras, como por exemplo membros da renomada Boston Symphony Orchestra. Ela mantém estúdios de composição e de produção em Boston e Los Angeles para abastecer seus clientes de filme, vídeo e videogames.

Links relacionados a esta matéria

Site da Jeanine (contém amostras de áudio de muitas das composições e temas feitos por ela)

So You Want to Be a Film Composer? (Então você quer ser um compositor de cinema?) – Um artigo completo da Film Score Monthly que inclui uma entrevista com um agente top, que representa a maioria da nata dos compositores de Hollywood

The Complete Guide to Film Scoring (O guia completo para temas cinematográficos) – este livro, escrito pelo compositor de filmes Richard Davis, dá uma visão interna das vidas e das obras de muitos compositores de cinema de ponta

The Emerging Film Composer  (O compositor de cinema emergente) – outro livro que dá um panorama das pessoas, desafios e recompensas oferecidos por uma carreira de composição, escrito pelo veterano de Hollywood Richard Bellis


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