Como um artista independente ganhou US$ 56.000 com uma canção no Spotify (uma entrevista com Perrin Lamb)

Tem artista multimilionário reclamando que streaming paga pouco. O músico independente Perrin Lamb ganhou R$ 200 mil com UMA MÙSICA no Spotify, e te conta como isso pode ser diferente, enquanto o SomosMúsica analisa a questão a fundo. Vem, vem, vem

Como um artista independente ganhou US$ 56.000 com uma canção no Spotify (uma entrevista com Perrin Lamb)Por Chris Robley

“Contanto que você tenha seu próprio negócio e não coloque todas suas fichas em uma só opção, (streaming) pode ser muito lucrativo.” — Perrin Lamb

Para aqueles de vocês (a maioria) que nunca ouviram falar de Perrin Lamb, ele é um pai, cantor e compositor, artista da CD Baby e a mais recente história de sucesso da música independente com “streaming”, tendo recebido cerca de US$ 56.000 (R$ 200.000) pelas mais de 10 milhões de vezes que sua música foi tocada em streaming no Spotify.

Algumas semanas atrás, o jornal The New York Times fez uma matéria sobre Perrin, chamada “Músicos encontraram recompensas inesperadas em “streaming”. A matéria dizia:

… o sr. Lamb, 39, é um exemplo de uma classe crescente de músicos que estão longe de serem superstars — ele ainda tem um trabalho fora do universo da música — mas que ainda assim conseguem às vezes ter um bom lucro com streaming.

Se você está montando uma equação rápida na sua cabeça para saber qual é a fórmula para esses números terem formado a palavra S-U-C-C-E-S-S-O, bem, aqui vai mais um pouco de conteúdo: um editorial da Music Business Worldwide escrito por outro artista independente, Josh Collum:

Como um artista independente ganhou US$ 56.000 com uma canção no Spotify (uma entrevista com Perrin Lamb)

Perrin Lamb, em foto da Glass Jar Photography.

O Perrin Lamb é o típico compositor e cantor indie de Nashville. Ele mora na cidade faz mais de uma década. Ele nunca assinou um contrato com uma gravadora. Sua música é entregue ao Spotify pela CD Baby, uma distribuidora de música independente que trabalha com mais de 400.000 artistas como ele.

Ele se deu bem em inserções da sua música em programas de TV e de filmes, mas a renda da composição e das apresentações nunca foi suficiente para pagar suas contas. Ele sempre manteve um emprego em horário comercial. E tá dando tudo certo, mas nunca foi fácil.

Até que, em janeiro de 2014, uma música dele chamada “Everyone’s Got Something” foi colocada na playlist Your Favorite Coffeehouse do Spotify, pela equipe da própria empresa. A música já tinha sido lançada fazia um ano, mas não tinha feito muito sucesso até então. Mas, depois de entrar para essa playlist… boom. Centenas de milhares de ouvidas se transformaram em milhões de ouvidas.

Hoje em dia, essa canção marca 13 milhões de streams.E as tocadas aumentaram, sem chegar a um pico descendente, com o tempo. Ele ganhará bem mais dinheiro no segundo ano da playlist do que ganhou no primeiro.

Para fins de transparência, nossos amigos da CD Baby mandaram o último relatório de venda do Perrin. Você pode conferí-lo aqui (à direita). Como um artista independente ganhou US$ 56.000 com uma canção no Spotify (uma entrevista com Perrin Lamb)Quando o assunto são taxas de “streaming”, ele já recebeu por 10.929.203 dessas 13 milhões de tocadas no Spotify da música “Everyone’s Got Something”. O que somou US$ 44.100,60.

Depois da cobrança de uma taxa de distribuição de 9%, isso dá US$ 40.131,55, que vão direto ao dono dos direitos autorais: Perrin.

(PS: esse relatório só mostra o dinheiro de “vendas”. Royalties mecânicos e de performance digital se somam a esse montante, que alcança US$ 56.329,35, mas demoram mais para serem coletados e reportados. E isso aconteceu com o Perrin também.)

E lembre-se que as vezes que uma música é tocada no Spotify não moram no vácuo. Eles são um incentivo para a carreira do Perrin e seus negócios. Eles fizeram aumentar os streams de outras canções que ele tem no Spotify (você pode ver nesse relatório que outra canção chamada “Little Bit” que gerou cerca de US$ 37.000 em vendas com 11 milhões de tocadas no Spotify). As vendas de download do Perrin também subiram. Vídeos de YouTube feitos por fãs foram postados na rede e ele está ganhando royalties com a ajuda dos nossos amigos da Rumblefish (a parceira da CD Baby para monetização de YouTube).

Dà para ver que o ecossistema do mundo digital Pós-Napster é um só, e todo integrado. E se seus negócios estiverem estruturados de um jeito que consiga capitalizar isso, essas conexões podem ser incrivelmente úteis. E lucráveis.

Então, minha esperança ao compartilhar isso com vocês e na verdade… esperança. E, mesmo além da esperança, há motivos para se animar.

Nós ainda estaos no estágio infantil da migração digital e já há milhares e milhares de histórias de sucesso como as de Perrin. Já há artistas e compositores que estão descobrindo como montar negócios fortes e ágeis para essa nova era.

Conforme fomos navegando as águas revoltas dessa migração, temos de estar tão abertos a ouvir as hitórias desses artistas como somos abertos a ouvir aquelas de artistas contratados por grandes gravadoras. É importante demais para se ignorar.

E, quem sabe, a gente até possa achar soluções que funcionem para todo mundo?

O Josh está claramente posicionado a história do Perrin como uma narrativa alternativa ao apocalipse musical que algumas estrelas defendem que esteja acontecendo nos dias de hoje. Thom Yorke, Pharrell e Aloe Blacc defendem essa visão pessimista— artistas que com frequência são notícia por receber pagamentos pífios de streaming ou mesmo por terem se manifestado sobre a insustentabilidade do modelo de streaming.

Mas essa diferença de opinião é mais profunda do que apenas o tamanho que a carreira de cada artista alcançou; ela mora, como todas as coisas, nos pequenos detalhes.

Como o “streaming” de música pode beneficiar artistas independentes

  1. Quando você mantém a propriedade da sua gravação master, os pagamentos são melhores do que algumas notícias da mídia podem te levar a crer

Quando artistas representados por gravadoras gigantescas se queixam dos pagamentos minúsculos pelo serviço de “streaming”, você raramente ouve sobre o pedação que está sendo mordido pelas gravadoras. Afinal, a maioria dos contratos com gravadoras, mesmo na era digital, empregam regras de contabilidade que já são datadas, e que colocam o lucro da empresa na frente do lucro do artista (se é que o artista vai conseguir ganhar qualquer dinheiro, com o tanto de taxas que são cobradas em seu nome).

Como artista independente, é bem provável que VOCÊ seja a gravadora. VOCÊ é dono das suas gravações master. Você fica com 100% da sua renda com streaming.

  1. Você TAMBÉM tem direito a royalties de publicação, e eles são representativos se você for dono de 100% da sua publicação

Você também deve ter ouvido um monte de reclamações sobre a insuficiência de royalties de publicação gerados pelo streaming. Mas um outro detalhe importante que é geralmente deixado de fora da discussão são os splits, ou como o dinheiro é dividido por entre vários compositores e publicadores.

Grande parte da música pop de hoje é criada por um aparato de produção: equipes de compositores, de produtores, pessoas que fazem as batidas, letristas, vocalistas de fita demo e mais — eles trabalham juntos para fazerem os grandes hits rolarem. Daí vêm os artistas, que se são superstars, mesmo que não tenham escrito nada da música, negociam de ter seus nomes nos créditos.

E toda essa renda de publicação tem de ser dividida de acordo, não só entre os 3, ou 5, ou 9 compositores de cada faixa, mas também com os representantes das entidades de publicação.

Quando você olha desse jeito, é tipo cortar uma torta grande em fatias bem pequenas. Mas, como você é um músico independente, se você é o compositor, fica com 100% dos seus direitos de publicação. E você também tem os royalties de publicação a cada vez que essa música for tocada em streaming, além do valor que você ganha a cada vez que ela for tocada, por ser dono da gravação master.

  1. O fim da vida de prateleira nas lojas significa que você tem um tempãããão para estourar (ou “Sua música velha sempre será nova para alguém!”)

A música do Perrin já tinha saído há mais de um ano antes de ser colocada na playlist do Spotify e começar a atrair ouvintes.

Se tivesse acontecido 15 anos atrás, ou se ele estivesse numa grande gravadora, seu álbum já teria sido considerado um fiasco nesse ponto. É capaz até que ele tivesse sido dispensado pela gravadora depois desse tempo, ou pior, ele estaria preso num contrato que o impediria de lançar novas músicas.

Na era digital, não existe mais vida de prateleira, o tempo que uma música vai ter de destaque nas lojas, bem como não existe mais espaço de prateleira. Isso é ainda mais verdade num mundo em que o “streaming” é mais popular que o dowload. Com “streaming”, uma música pode bombar anos ou décadas depois do seu lançamento, então é importante manter todo seu catálogo disponível para ser descoberto..

  1. O ecossistema digital e conectado dá mais espaço para os fãs decidirem o que vão tocar

Quantos milhões de playlists de Spotify não existem por aí? Quantas milhões de vezes por dia as pessoas não compartilham o que ouviram nas redes sociais, com links para ouvir em qualquer plataforma de “streaming”?

Como a história do Perrin sugere, é possível criar um momento para sua música bombar no Spotify (especialmente com playlists proeminentes) com chances maiores a cada ano que passa, ao contrário do sistema antigo, em que um artista tinha um período bem limitado de tempo para que sua música fosse ouvida, e uma quantidade limitada de ferramentas para construir uma carreira com aquele destaque que ganhava quando uma música era lançada.

Hoje em dia, os fãs têm mais poder para decidir que música merece destaque. Eles podem (e querem) ter um papel em aumentar a vida de destaque de músicas que amem.

  1. A atividade de “streaming” cria mais atividade de “streaming”

Não é física quântica. Quanto mais as músicas de um artista forem ouvidas em “streaming”, mais gente vai ouvir outras faixas do mesmo artista. E, de novo, isso vale mais para o mundo de “streaming” do que para um mundo de downloads ou de mídias físicas. Com o streaming, não há risco monetário. Você está simplesmente convidando seu ouvinte a passar um tempinho com você. Se eles se sentem bem-vindos e intrigados, eles ficarão por aí (o que gera renda). Se eles não te curtirem, vão te desligar.

  1. A atividade de streaming não mora no vácuo

Como o Josh explicou acima, os US$ 56.000 que o Perrin ganhou do Spotify foram por apenas uma canção. Ele tem outras músicas que estão gerando uma renda significativa nessa plataforma também. Além do mais, É SÓ o Spotify. A música do Perrin está disponível em um monte de serviços diferentes e em formatos diferentes. E essa atividade que acontece no Spotify também ajuda na presença dele no YouTube e em uso da sua música na TV e em filmes (ambas são formas de renda).

O Spotify é só uma peça no quebra-cabeças de renda de Perrin.

É uma dura estrada, mas com apoio, perseverança e um pouco de teimosia, pode dar certo.”

Depois de tudo isso, vamos à entrevista deste artigo.

Eu achei que depois de o New York Times dar a notícia, com o Josh Collum e a CD Baby, a gente deveria escutar o próprio homem. Então eu conversei com o Perrin Lamb sobre Spotify, música independente e vida em família.

Eis o nosso papo:

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CR: Sua biografia te coloca bem fora da mitologia já gasta do hipster urbano ou do homem do campo romântico. O texto sobre você diz “Ele vive como todos nós e derrama a criação de letras de música na mesa da cozinha, enquanto tenta convencer seu filho bebê de comer todos os legumes…”

PL: Bom, não se trata muito de uma imagem, de criar uma imagem. Sou só eu. E acho que as pessoas dão valor a isso. Parece até renovador, de uma certa forma. Tipo, hey, esse cara é que nem eu, só que ele escreve músicas. As pessoas conseguem se identificar.

CR: Eu achei revigorante ler isso. Você acha que há algo sobre abraçar o dia a dia e ajudar a derrubar algumas dessas ilusões sobre o sucesso te faz mais apto a enfrentar esses novos tempos estranhos do mercado?

PL: Com certeza, faz sim. Quando eu comecei, eu não tinha ilusão de que seria um “rock star”. Eu só queria conseguir bancar a vida da minha família fazendo aquilo que amo fazer. Meus pais eram professores, então pensei que, se eu conseguisse ganhar tanto quanto um professor, já seria uma vitória. É uma estrada árdua, com certeza, mas com o apoio, a perseverança e um pouco de teimosia, pode dar certo.

CR: Como você consegue concilar as responsabilidades de família, trabalho e arte? A música é seu “trabalho em horário comercial”?

PL: Quanto ao equílibrio, eu encaro como qualquer outra pessoa que sai para trabalhar de manhã e volta para casa à noite. Leva as crianças para a natação e para a aula de piano… É um trabalho. Eu sou apaixonado por ele, então não tem pressão de nenhum dos dois lados, de verdade. Eu sou sócio e dirijo uma empresa de licenciamento de música chamada Sorted Noise. Então, de verdade, a coisa mais difícil de conciliar é o “artista” com o “homem de negócios”.

CR: Você tem duas músicas que tiveram um desempenho especialmente bom no Spotify. O que você acha dessa plataforma e sobre “streaming” em geral? Que oportunidades ela oferece ao artista independente?

PL:Eu acho que plataformas de “streaming” são a melhor fonte, não só de renda, mas de descoberta que existe hoje em dia para esses artistas. Ela ainda está na sua infância, então os problemas de direitos autorais ainda serão resolvidos no futuro. Mas, por ora, eu acho que não tem preço. Desde que você, artista, possa ser dono do seu próprio negócio, a música, para não ter várias mãos pegando o seu pote de biscoitos, pode ser bem lucrativo.

CR: A quantia de dinheiro que você ganhou por cada stream da sua música no Spotify é muito maior do que é comum ouvir quando se fala de grandes gravadoras. Tem alguma teoria sobre isso?

PL: Eu não tenho um “manual de instruções” para o assunto streaming. Minha experiência de vida é totalmente diferenta da do Aloe Blacc, digamos. Então eu não quero ficar dando regras quanto a isso, mas, para mim, eu sou o artista, único compositor e publicador da minha música. Então não há mais mãos no meu pote de biscoito que não a minha.

CR: Seu álbum Back to You saiu em 2012, mas a atividade de “streaming” só começou a bombar em 2014. A que se deve esse aumento? A música foi usada na TV ou em filme?

PL: Bom. É difícil dizer. “Everyone’s Got Something” nunca teve um contrato de sincronização, na verdade. Então entrar na playlist “Your Favorite Coffeehouse” serviu como catalizador. A música “Little Bit” foi usada em alguns comerciais, e em vérios micro-usos em vídeos do YouTube. Então talvez isso tenha tido um papel, mas, até onde eu sei, a equipe editorial do Spotify só curtiu as músicas e decidiu usá-las.

CR: Era uma vez uma época em que tocar no rádio levava a vender discos. Qual é o novo paradigma? É conseguir que usem sua música, para depois ela ser ouvida em streaming?

PL: Essa é difícil. Acho que o rádio ainda consegue estabelecer ciclos de popularidade. Então, o que estiver tocando no rádio vai dar a cor do tipo de música que os supervisores sonoros querem usar na TV e no cinema, ou o que o público quer ouvir em stream. Mas, como artista independente no mundo moderno, não acho que você tenha que se matar para entrar no rádio. Há jeitos infinitos de viver de música hoje em dia, o que é bem animante!

CR: Você promoveu sua música ativamente no Spotify?

PL: Não. Tudo aconteceu de maneira orgânica. Eu sempre usei a técnica “menos é mais” como artista. Eu não sou ativo como os outros nas redes sociais, nem faço turnê. Então acho que há um pouquinho de mistério aí, o que considero intrigante e acho que combina com a minha personalidade. Eu descobri, com o passar dos anos, que quanto mais tento me promover, menos ou conseguia me conectar com o público Se eu deixar a música falar, funciona melhor.

CR: Como você conseguiu tantos contratos de inserção em TV e filmes para as suas músicas? Você trabalha com uma agência de licenciamento? Você tem relações com os supervisores de trilha° Tem conselhos para artistas independentes que querem entrar nesse mundo?

PL: Eu decidi no começo da carreira que queria focar em inserção e sincronização. Então comecei a prestar atenção às músicas que estavam conquistando a atenção dos supervisores de trilha sonora e comecei a adequar meu estilo ao delas. Eu sou sócio e diretor de uma empresa de licenciamento em Nashville, que se chama Sorted Noise. Por causa disso e da minha capacidade artística, eu consegui criar uma relação bem próxima com supervisores musicais. Eu digo isso a todos os artistas que querem se focar em licenciamento: ache um representante em quem você confie, tenha um bom repertório e alguém com quem outros artistas curtam trabalhar. Daí é só SER PACIENTE. Essa é a coisa mais importante.

CR: O que a CD Baby permitiu que você fizesse com sua carreira?

PL: De verdade, a CD Baby tem sido ótima, simplesmente porque eles tornam tudo mais fácil para os artistas que, sejamos honestos, não costumam ser as pessoas mais sabidas de assuntos de negócios. Ela permite que eles sejam pagos, além de lançar e distribuir suas músicas! E isso é uma grande coisa.

CR: Quais são os planos para o futuro?

PL: Estou trabalhando em novas músicas que devem sair nos próximos meses, e também dedicando algum tempo ao meu trabalho com os Sorted Noise. Ah! E minha equipe de natação de crianças de 7 a 8 anos, é claro. VAI, THOROUGHBREDS!

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Para saber mais sobre o Perrin Lamb, confira o site oficial dele.

Qual é sua opinião no debate do dinheiro gerado por “streaming”? O “streaming” é uma benção ou uma maldição para artistas independentes? Conte para a gente na seção de comentários, aqui embaixo.

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