Como (e por que) você deveria se vender para seus fãs que usam torrents

O compartilhamento de música é visto como vilão por uma grande parte dos músicos e das gravadoras. Mas e se as pessoas que baixam seu som de graça forem mais um mercado a ser desbravado do que piratas que merecem a cadeia? Uma ideia revolucionária, no SomosMúsica

Como (e por que) você deveria se vender para seus fãs que usam torrentsOs compartilhadores de arquivos P2P: “Fãs, não inimigos”

Dependendo do seu nível de sucesso como músico independente, você pode ter dezenas, centenas, milhares ou até dezenas de milhares de fãs que fizeram download da sua música de graça de um site de torrent ou outro. Essas são as pessoas que não pagaram pela experiência de curtir (esperamos) sua música.

Mas eles também vivem num mundo real: compram produtos, pagam por serviços, interagem com a comunidade e eles podem ser influenciados por marketing. Na real, você provavelmente veria resultados muito melhores fazendo marketing do seu som para esses ‘torrenteiros’ do que para qualquer outro grupo.  Os ‘torrenteiros’ já demonstraram ter interesse por sua música, afinal, então eles são as pessoas perfeitas para quem você deveria anunciar ofertas especiais das mercadorias da sua banda, ingressos para shows ou discos de vinil em edição limitada.

Essa é a teoria por trás da TRACE, uma plataforma da Muzit que permite a artistas e a gravadoras fazer propaganda direto com seus fãs em canais de torrent. E essa teoria vem se provando boa na prática.

Eu falei com o CEO e criador da Muzit, Tommy Funderburk (que também a cantor, compositor e ex-dono de gravadora) sobre a TRACE, como os artistas podem controlar (ou aproveitar) o fluxo P2P dos seus fãs e o que isso pode significar para o futuro do marketing de música.

Uma entrevista com Tommy Funderburk, da Muzit

Chris: Na era de streaming fácil e monetizado, em plataformas como Spotify e Apple Music, o download peer-to-peer (de uma pessoa para outra) ainda é um problema?

Tommy: Obrigado pelo pedido de entrevista e por essa ótima primeira pergunta. Primeiro, você fala de monetização de streaming. Muitos artistas discordariam que são minimamente pagos por serviços de streaming. É verdade que Spotify, Pandora e outros serviços pagam grandes taxas de licença pelos direitos autorais do streaming, mas esse dinheiro vai para as gravadoras que, com algumas raras exceções, não compartilham esse dinheiro com os artistas.

Não, os serviços de streaming também deveriam pagar os artistas separadamente porque, como na maior parte dos casos, os artistas são o elo mais fraco aqui. Eu, como sou compositor, não acredito que US$ 60 por quase um milhão de vezes que fui tocado em streaming seja um bom pagamento. Mas isso é outro problema, não é?

[Nota do editor:  Se você tocar músicas que compôs e cuja gravação master esteja em sua posse, você não precisa se preocupar com não receber pagamentos, você tem controle do processo todo.]

Então, quanto a P2P… na Muzit a gente não reage a downloads de P2P como um problema; a gente optou por ver o compartilhamento de arquivos como uma ótima oportunidade. Não me leve a mal. A gente não apoia a “pirataria”. E o fato que as gerações mais novas hoje acreditarem que a música deveria ser de graça quase matou esse mercado. Mas não dá mais para voltar atrás e acabar com o P2P. Ao invés de lutar com a maior plataforma de distribuição do mundo, a gente decidiu achar um jeito de ganhar dinheiro com isso.

As pessoas ainda fazem download de centenas de milhões de músicas, filmes e outros produtos que deveriam ter direitos autorais, ainda hoje. Sim, é claro. E, ao contrário do que se pensa hoje em dia, o streaming não ‘matou’ o P2P. Muitas empresas que monitoram o fluxo de torrent noticiam que, enquanto o “streaming” está crescendo com uma audiência própria, milhões de pessoas ainda preferem obter suas músicas via torrents. A Cisco Visual Networking descobriu que o compartilhamento ilegal de arquivos na América do Norte cresceu 44% de 2008 a 2014 e prevê crescimento até 2019.  E, recentemente, um estudo da MusicWatch apontou que 57 milhões de americanos usam sites piratas para consumir música com frequência. Mas a Muzit tem seus próprios dados.

Desde que a gente lançou a plataforma Muzit TRACE em outubro passado, a gente identificou 306 Milhões de pessoas se engajando com seus artistas prediletos via P2P, através de 150.000 torrents (e esse número só cresce). Hoje a gente está descobrindo cerca de 6 milhões de novos usuários por semana. Como o nosso processo de monitoramento é automatizado, esses números continuam crescendo numa taxa alarmante. Para nós, a comunidade P2P é extremamente ativa e o lugar que ela ocupa é um território intocado de e-comércio.

Chris: O que é a plataforma TRACE? O que ela faz?

Tommy: A Muzit existe na divisão da big data com os anúncios segmentados online, e ela desenvolveu e lançou uma plataforma própria chamada TRACE (Torrent Reporting and Content Engine, ou reportariado de torrents e ferramenta de conteúdo) que monitora as redes de p2p em tempo real. A Muzit usa a TRACE e seus dados para criar públicos-alvo personalizados por artistas, e depois gera campanhas de marca, aprovadas pelo artista e amigáveis para o fã. É uma escolha para os donos dos direitos autorais que decidem tratar os usuários de P2P do mesmo jeito que trata seus fãs tradicionais.

Chris: E como funciona?

Tommy: O painel de controle TRACE mantém o monitoramento de milhões de atividades de torrent na internet, analisando diversas plataformas de P2P e serviços de torrent. A gente monitora as tendências de indivíduos e de artistas, para que se possa fazer marketing de som com precisão. Os artistas podem depois mandar e-mails para esses fãs que usam torrent, com ofertas de marketing. A meta final é incentivar as pessoas que fizeram download a serem fãs que pagam pelo seu som. Nosso lema é: fãs não são inimigos.

Chris: Como foi sua trajetória entre dirigir uma gravadora e criar a TRACE?

Tommy: Eu fundei a Sovereign Artists em 2002, para aproveitar a capacidade da internet de conectar os artistas diretamente com seus fãs. Muitos artistas estavam começando a reaver seus direitos autorais, e muitos músicos famosos estavam descontentes com sua relação com selos. Então eu e uns amigos que trabalharam na Warner Bros e na Capitol decidimos criar um modelo de distribuição. Parecia uma ótima ideia na época  Entretanto, não estávamos prontos para a ascenção do Napster e o tsunami das coisas “de graça” que vieram depois. A gente representou bem nossos artistas e lançamos boas músicas, mas prefiro chamar a Sovereign de uma “experiência de aprendizado”.

Conforme as pessoas começaram a fazer mais downloads gratuitos do que a gente vendia, eu fui atrás de executivos do Napster e do Grokster. Mas eles achavam que música deveria ser de graça. Mas quem pagava esse preço eram os artistas e os detentores dos direitos autorais das músicas. Depois da Sovereign, eu tentei em pensar num jeito para os artistas pularem as instituições e chegar direto a seus fãs. E essa continua sendo a nossa meta.

Chris: Fala-se muito no mercado fonográfico sobre a importância dos dados. Mas que tipo de dado é “válido”? Eu já posso ouvir os céticos se perguntando: “As pessoas que baixam música de graça COMPRAM alguma coisa? Por que eu pagaria para me comunicar com as pessoas que roubaram minha música?“

Tommy: Costumava-se dizer que “A Música é o Rei”, mas pode ser que isso esteja mudando. Nós estamos na era da informação. Conhecimento é realmente poderoso. O quanto mais um artista souber sobre seus clientes em potencial, mais vai conseguir promover suas músicas acertadamente, com a divulgação certa.

Quanto à pergunta “mas eles compram?”…   Alguém acredita que as centenas de milhões de pessoas que usam P2P não têm ligação com o mundo real? O mercado e os céticos precisam superar isso. Eis uma novidade: os usuários de P2P pagam para ir a shows, comprar CDs, eles compram LPs, compram camiseta, adquirem edições super cool de DVDs e livros. Pergunte para o Trent Reznor:eles compram mercadorias de banda, apoiam seus artistas prediletos no Kickstarter e promovem o som que curtem online. Pergunte para a Amanda Palmer. Por que pagar? O método antigo de fazer marketing de música está morrendo. Se você quiser crescer com sua comunidade online e viver de fazer música, enquanto ajuda os outros a fazer o mesmo, a Muzit faz tudo isso.

Chris: Que tipo de dados vocês compartilham com os artistas?

Tommy: Nós compartilhamos com os detentores dos direitos autorais uma gama de informações baseadas nos dados que coletamos. Nós já identificamos mais de 306 milhões de endereços únicos de IP de fãs de música que usam P2P. Essas informações detalhadas ajudam a fazer gastos mais acertados e novas decisões artísticas. Nossa habilidade de geolocalizar permite dizer onde milhões dos seus fãs estão, onde vale fazer turnê, o que os fãs querem ouvir, que mercadorias vender e daí por diante. Além disso, a gente ajuda os artistas a venderem ingressos de show e mercadorias para o nosso mailing, que não para de crescer. A Muzit também está em parceria com empresas enormes de coleta de dados que pagam aos artistas para fazer propagandas para seus fãs. Em suma, a gente colhe dados e coloca nossa equipe de pesquisadores e cientistas para bolar novos métodos de fazer marketing no nosso canal de renda, o Muzit Channel. Os artistas fazem marketing para os fãs através do Facebook, Twitter, e qualquer outro canal, mas o Muzit Channel é maior que todos eles juntos.

Chris: Como você consegue pintar um retrato tão preciso e detalhado da pessoa que faz download P2P, enquanto ainda mantém a privacidade deles em sigilo?

Tommy: Sem revelar muito o segredo do nosso “molho especial”, posso dizer que a gente não participa do processo del download como a polícia dos direitos autorais. Nós criamos uma nova tecnologia que identifica endereços de IP e o comportamento deles. Nossa informação é open sourced (pode ser consultada por qualquer um) e a identidade da pessoa que faz download é considerada um sigilo entre ele e o dono dos direitos autorais. Nós damos esses dados aos artistas na forma de planilhas e mapas, para permitir que eles conduzam suas campanhas de marketing a partir desses endereços de IP.

Os artistas podem ver os dados, a geolocalização e qualquer outra tendência relevante sobre sua música. Toda a comunicação direta é feita pela Muzit. Como a gente não tenta obrigar os usuários a revelar suas informações privadas, conseguimos enviar mensagens para quem fez downloads ilegais. Nossos clientes então escolhem se querem receber ou não esse tipo de mensagem.

Chris: Quais são alguns exemplos de mensagem de marketing que os artistas conseguiram mandar para esses fãs?

Tommy: Os The Mavericks foram uma das primeiras bandas a usar a Muzit e fez com ela o sorteio de uma guitarra, o que ajudou a criar um mailing extenso e aumentar sua presença nas redes sociais. Nós criamos uma segunda campanha agradecendo aos fãs que usam P2P fãs e comemorando a indicação da banda ao Grammy. Um dos nossos fundadores, o engenheiro e produtor Niko Bolas, fez uma mixagem especial, em Mono e acústica, da música deles que tinha sido indicada ao Grammy, e que oferecemos a todos que tinham feito download de músicas dos Maverick. A base de fãs do Maverick em P2P cresceu para 303.000 pessoas em poucos meses.

Os herdeiros de Isaac Hayes e de James Brown também estão usando a Muzit para capitalizar com venda de mercadorias, bem como com venda de músicas. Eles estão planejando oferecer descontos em mercadorias dos artistas e fazer concursos com itens dos dois.

Chris: Esses são exemplos de artistas famosos, com catálogos bem-sucedidos, mas há exemplos de artistas independentes e menos bem-sucedidos que se beneficiaram desse mesmo sistema?

Tommy: Você está certo, a gente começou com artistas mais conhecidos. Entretanto, a Muzit vem ajudando a artistas emergentes também. Estamos trabalhando hoje com uma banda de Atlantic Records que está começando uma turnê agora. Encontramos outros artistas com sons similares. Geolocalizando onde esses outros artistas se apresentaram no passado, conseguimos encontrar cidades que têm fãs desse estilo de som. E também podemos cruzar informações entre dois artistas ou duas gravadoras, se eles permitirem.

Chris: Faça de conta que você é um psicólogo e tem um artista sentado no seu divã, um artista que culpa as mudanças tecnológicas dos últimos 20 anos pelas dificuldades por que passa o mercado e a própria carreira dessas artistas. Qual seria o seu conselho para ele? Que pergunta você faria a ele, para que ele se desembolasse?

Tommy: Colocar a culpa em coisas não vai te levar para lugar nenhum rapidamente. Muitas pessoas (e artistas demais) se recusam a admitir uma culpa individual pelas coisas que eles fazem. Todo mundo erra. Olhe para o mercado fonográfico: eles culparam Napster, Grokster, Morpheous, Bittorrent e todos os demais que criaram uma das maiores revoluções de sistema de distribuição da história, e que bem trouxeram com isso?

A tecnologia está mudando rápido e a verdade mais brutal é, se você não se adaptar ou não puder se adaptar, vai ficar para trás. Então o artista tem uma escolha: ele pode ficar no acostamento, reclamando sobre como a fita K7 era boa e como Mp3 é uma droga (OK, é uma droga mesmo) ou como eles foram enganados por gravadoras nos anos 80 e 90 (talvez eles não tenham entendido a mensagem “todo mundo se ferra, menos ou mais”)  – ou – eles podem aproveitar da liberdade da tecnologia que a internet trouxe, fazer ótimas músicas e compartilhá-las com o mundo.

A pergunta que eu faria é a seguinte – Você quer fazer isso de verdade ou não? Se você realmente quiser isso, mãos à obra.

Chris: Para completar, o que você acha que o futuro, digamos os próximos cinco anos, guardam para o mercado fonográfico e para os artistas?

Tommy: Eu acredito que o compartilhamento de arquivos em P2P vai permanecer estável, a não ser que alguma coisa grande ocorra. Os serviços de “streaming” têm custos enormes, ainda se está a descobrir se eles vão conseguir conquistar clientes pagantes o suficiente para seguirem existindo. E se acontecer como parece que vai, as empresas vão começar a matar as lojas virtuais como o iTunes e empurrar os clientes para assinaturas de serviços de “streaming” que pagam muito pouco para os artistas, e é daí que eu acho que haverá um pico nos downloads. Se o mercado começar a intensificar as práticas que pagam mal aos artistas, eu espero ver mais artistas deixando essas gravadoras. Conforme o custo de produzir música continuar caindo, eu acredito que cada vez mais artistas vão considerar a oportunidade de fazer sua própria música. Eles precisam de um sistema de distribuição que os vá recompensar por seu trabalho. Nós criamos a Muzit para preencher esse vazio de monetarização. O mercado da música foi mudado para sempre pelo P2P. Agora nós estamos num período de transição em que artistas e gravadoras estão trabalhando para ver quais são os modelos novos e como navegar nessa nova era de informação. A Muzit facilita essa transição, e faz dela eficiente. Os próximos cinco anos serão bem animados.

Visite o site da Muzit para saber mais: http://muzit.com/.

Você usaria uma ferramenta como a Muzit para fazer marketing da sua música para os fãs? Conte para a gente nos comentários aqui embaixo.


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